Campanha da Fraternidade 2026 – “Fraternidade e Moradia: Ele Veio Morar entre Nós” (Jo 1,14)

Campanha da Fraternidade 2026 – “Fraternidade e Moradia: Ele Veio Morar entre Nós” (Jo 1,14)

A Campanha da Fraternidade de 2026 nasce como um chamado à consciência e à compaixão, se levantando como voz dos que vivem à sombra das grandes cidades, sob lonas improvisadas, em barracos, em vielas, nas calçadas onde a vida resiste. É um convite de Deus, que mais uma vez deseja nos despertar para o essencial: a dignidade de cada ser humano.

(Foto: Patrick Hendry na Unsplash)

O tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós”, recordam que o próprio Cristo escolheu viver no meio do povo, em casas simples, partilhando o pão e o caminho, não quis distância: quis presença, não se limitando a visitar o mundo mas veio morar conosco. O mistério da Encarnação é o coração da Campanha, o Deus invisível se fez vizinho, o eterno se fez próximo, e a humanidade tornou-se o lar onde o amor de Deus habita. Por isso, a moradia não é apenas uma necessidade material: é um sinal da presença divina.

Toda casa é chamada a ser um espaço de comunhão e de cuidado, onde a fé se traduz em vida e o amor se torna concreto, e negar a moradia digna é negar o lugar onde Deus deseja permanecer. A Gaudium et Spes recorda que “Deus destinou a terra e tudo o que ela contém para o uso de todos os homens e povos” (n. 69). A terra e o teto não são favores: são expressões da justiça que brota da vontade do Criador, sendo a moradia digna um direito humano e um gesto de fraternidade real. Sem um lar, o ser humano perde o chão, o abrigo e a paz.

A casa é o primeiro altar da vida: nela se aprende a amar, a rezar e a cuidar. O Papa Francisco, em Fratelli Tutti, diz que “a falta de moradia fere a alma”(nº. 152), e essa ferida é uma chaga aberta no corpo social, e ao falarmos de moradia é falar de amor ao próximo e de responsabilidade comunitária, não havendo verdadeira fé quando o outro continua esquecido nas ruas, provando pela fraternidade que quando deixamos de olhar de longe, é que começamos a construir junto.

Por isso, a Campanha da Fraternidade 2026 não é apenas um tempo de reflexão mas de ação transformadora; um apelo para que a fé saia do discurso e se torne gesto. Não basta rezar pelos que não têm casa mas é preciso agir para que cada pessoa tenha um lar. Não basta compaixão o que precisa é comprometimento. O Evangelho nos chama a romper o comodismo e a indiferença, e como igreja somos convidados a unir oração e solidariedade, palavra e atitude, não se limitando a verdadeira fé ao altar, pois o altar e rua se encontram quando o Evangelho se encarna.

Cada gesto de amor é uma celebração viva, cada ato de justiça é uma oração silenciosa, e a Campanha também nos recorda que a conversão não é apenas individual, mas social, e seguir Jesus é escolher o lado dos que sofrem, e ter a coragem de enfrentar estruturas injustas denunciando tudo o que desumaniza. Há um grito que sobe das ruas e atravessa os céus. Ele nasce das calçadas, das ocupações, das periferias esquecidas, e denuncia sistemas que constroem muros, mas negam casas; que protegem patrimônios, mas abandonam pessoas; que transformam o direito em mercadoria e a vida em sobra. É o clamor dos que foram empurrados para as margens, tornando visível uma ferida que muitos insistem em ocultar.

A falta de moradia não é fatalidade nem simples consequência do acaso, mas fruto de escolhas políticas, de modelos econômicos excludentes e de uma cultura que lucra com a exclusão. Por isso, a Campanha da Fraternidade também é denúncia: denúncia contra estruturas que expulsam os pobres, contra políticas que ignoram os vulneráveis, contra projetos urbanos que escondem a miséria em vez de enfrentá-la.

Não é possível proclamar o Deus que “armou sua tenda entre nós” e aceitar cidades que descartam, removem e empurram pessoas para fora do seu próprio chão. Impossível celebrar a Eucaristia e conviver pacificamente com a negação sistemática do direito à moradia, não podendo a Igreja se calar quando a dignidade é violada. O silêncio diante da injustiça não é neutralidade: é cumplicidade; onde vidas são empurradas para as calçadas, a fé é chamada a ocupar as praças.

Converter-se, portanto, é abrir os olhos e o coração; é mudar as relações e lutar para que a dignidade seja uma casa aberta a todos; não havendo espaço ao Evangelho sem justiça social. A fé autêntica não se contenta com palavras, mas se traduz em presença, em partilha e em compromisso, e a oração que não toca a realidade é vazia; a liturgia que não se transforma em serviço é incompleta. A verdadeira adoração acontece quando o pão consagrado no altar se torna o pão partilhado na mesa dos irmãos, começando a liturgia da vida quando o templo se abre ao mundo e o mundo se torna templo do amor.

A Campanha da Fraternidade 2026 nos convida, enfim, a viver o Evangelho social que não se acomoda, mas transforma; que une fé e solidariedade, esperança e ação. Cada casa reconstruída é um sinal de ressurreição, e a cada família acolhida uma nova página do Evangelho sendo escrita com gestos de misericórdia: Deus continua vindo morar onde o amor é possível.

Somos convocados, como profetas em nosso tempo, a exigir políticas públicas justas, a defender os que não têm voz e a confrontar interesses que se erguem sobre a exclusão. A moradia digna não é concessão: é direito, e negá-la é ferir o projeto de Deus, pois toda fé que não se transforma em denúncia perde sua alma profética.

Que cada comunidade seja canteiro de esperança, que cada coração se torne abrigo, e que cada casa reflita a ternura do Deus que habita entre nós, afinal devemos continuar firmes no verbo esperançar e assim “Sonhemos como uma única humanidade, como viajantes feitos da mesma carne humana, como filhos desta mesma terra que nos abriga a todos.” (Fratelli Tutti, n. 8)

Paz e Bem!
Juarez Arnaldo Fernandes
Especialista em Cristologia pelo Centro Universitário Claretiano