Reflexão litúrgica – 26º Domingo do Tempo Comum
Jesus conta uma parábola muito simples, um pai pede aos dois filhos que vão trabalhar na vinha, o primeiro diz que não, mas depois pensa melhor e vai, enquanto o segundo responde prontamente “Sim, senhor”, porém não cumpre aquilo que havia dito. Então Jesus pergunta qual dos dois fez a vontade do pai, e a resposta nos coloca diante de algo muito concreto: não foi aquele que respondeu corretamente, mas aquele que, mesmo começando com um não, mudou de atitude e foi.
O Evangelho toca num ponto que também pode incomodar a nossa vida de fé, porque podemos dizer “sim” a Deus, rezar, participar da Missa, ouvir a Palavra e receber a Eucaristia, mas continuar vivendo como se tudo isso não tivesse consequência nas nossas escolhas. Se diante do altar dizemos “Amém” ao Corpo de Cristo, esse Amém precisa continuar na vida, especialmente quando encontramos Cristo naquele que sofre, no pobre, no doente, no abandonado e naquele que quase ninguém quer enxergar.
Jesus coloca publicanos e prostitutas diante daqueles que se julgavam religiosamente corretos, não porque o pecado tenha deixado de ser pecado, mas porque eles acreditaram e abriram espaço para a conversão, enquanto outros não perceberam que também precisavam mudar. Há uma esperança muito grande nisso, pois Deus não nos aprisiona no “não” que dissemos ontem, sempre podemos rever o caminho e entrar na vinha. Converter-se é também deixar de justificar a própria vida e permitir que o Evangelho realmente mexa conosco.

A vinha nos ajuda a pensar nesse lugar concreto onde somos chamados a fazer a vontade do Pai e a trabalhar pelo seu Reino, que começa a se tornar visível quando a fome do outro nos incomoda, quando a injustiça não se torna normal, quando acolhemos, repartimos, perdoamos e defendemos a dignidade de quem foi deixado de lado. Trabalhar na vinha é deixar que a fé chegue também às nossas mãos, porque uma fé que nunca nos desloca e nunca nos aproxima de quem sofre corre o risco de permanecer apenas naquele “sim, senhor” que não saiu das palavras.
Também a Missa nos coloca diante dessa escolha, porque não vamos à Eucaristia somente para receber algo de Deus e depois voltar para casa do mesmo jeito, somos alimentados para sermos enviados e o Cristo que se entrega no altar nos ensina a fazer da própria vida uma entrega. A celebração termina dentro da igreja, mas aquilo que celebramos precisa continuar lá fora, na família, no trabalho, na rua e principalmente diante daqueles que foram esquecidos. É aí que o nosso “Amém” começa a mostrar se foi apenas pronunciado ou realmente vivido.
No fim, Jesus não procura filhos que saibam responder perfeitamente ao Pai, mas homens e mulheres capazes de mudar de caminho e ir para a vinha, porque podemos ter dito muitos “nãos”, podemos ter falhado e nos afastado, mas enquanto houver conversão existe caminho de volta. Talvez o perigo maior seja dizer sempre “sim” com os lábios e nunca sair do lugar, vivendo uma fé que pouco interfere naquilo que fazemos e na maneira como enxergamos o outro.
MEDITEMOS: Nosso Amém na Missa continua sendo vivido quando saímos da igreja? Em quais situações temos dito “sim, Senhor”, mas ainda não fomos trabalhar na vinha? O que precisamos mudar, juntos, para que nossa comunidade seja sinal verdadeiro do Reino de Deus?
Paz e Bem!
Juarez Fernandes – Especialista em Cristologia, Missiologia e Vice-diretor financeiro da Rádio Alvorada