Se Francisco de Assis caminhasse hoje por nossas ruas, talvez não começasse perguntando quem tem razão, nem procuraria primeiro os lugares importantes da cidade. Provavelmente caminharia para onde quase ninguém quer ir, sentaria perto de quem dorme na calçada, escutaria aquele que perdeu tudo e procuraria aqueles que nossa pressa aprendeu a não enxergar. Foi assim que sua conversão ganhou carne diante do leproso, não porque a pobreza fosse bonita ou o sofrimento devesse ser romantizado, mas porque naquele homem rejeitado ele começou a vencer aquilo que o afastava do irmão.
Talvez entrasse depois em nossas igrejas e encontrasse celebrações, ritos, imagens, movimentos e comunidades cheias de iniciativas, mas Francisco certamente faria uma pergunta incômoda: onde está a vivência do Evangelho no meio de tudo isso? Ele amava profundamente a Igreja e respeitava seus sacerdotes, mas seu amor nunca significou uma fé acomodada. Francisco não viveu uma Igreja de pedras, mas de gente, e quando ouviu diante do Crucificado o chamado para reparar a casa de Deus começou pelas paredes de São Damião, até compreender que havia uma Igreja a ser reconstruída pela vida, pela simplicidade e pela fraternidade.

E se Francisco chegasse hoje a Londrina, talvez não precisasse caminhar muito para encontrar homens e mulheres vivendo nas ruas e passando diante de nós até se tornarem quase invisíveis. Não perguntaria primeiro por que aquela pessoa foi parar ali, nem faria da calçada o lugar definitivo para ela, mas se aproximaria, porque antes de existir “um morador de rua” existe um irmão, alguém que tem história e dignidade, alguém que precisa de alimento hoje, mas também de caminhos para deixar a rua amanhã.
Talvez Francisco também estranhasse que em Londrina estivéssemos discutindo uma lei para restringir a entrega de alimentos nas ruas, porque diante de alguém com fome sua primeira preocupação provavelmente não seria onde uma marmita pode ser entregue, mas se aquele irmão terá o que comer naquela noite. Isso não significa ignorar higiene, organização da cidade ou políticas públicas de acolhimento, moradia, saúde e trabalho, significa apenas não inverter a ordem das coisas: primeiro existe uma pessoa e sua dignidade, depois vêm as normas que devem estar a serviço dela. Francisco nunca chamou a miséria de irmã, sua pobreza não era defesa da fome ou do abandono, era liberdade diante da posse e desejo de seguir o Cristo pobre, por isso dar uma marmita é necessário, mas a fraternidade também precisa perguntar o que fazemos para que amanhã aquele irmão não precise procurá-la numa calçada.
Francisco também olharia para a terra, para a água, para os animais, para o sol e talvez voltasse a cantar, mas seu Cântico das Criaturas encontraria hoje rios feridos, florestas derrubadas e uma criação que geme sob nossas escolhas. Ainda assim chamaria o sol de irmão, a água de irmã e a terra de mãe, porque reconhecia que tudo vinha das mãos do Criador. Talvez seu cântico nos perguntasse como podemos louvar a Deus pela irmã água enquanto a contaminamos e agradecer pela irmã terra enquanto a exploramos sem medida.
Diante das guerras, das divisões, da violência e de tanta gente que parece precisar de um inimigo para defender aquilo em que acredita, Francisco provavelmente não ficaria apenas repetindo a palavra paz. Ele atravessou em seu tempo as linhas de uma guerra e foi ao encontro do sultão, desarmado, levando consigo a fé e a disposição de encontrar uma pessoa onde tantos enxergavam apenas um adversário. Talvez seja assim que ele rezaria hoje pela paz, pedindo menos palavras e mais homens e mulheres dispostos a dar o primeiro passo, abandonar o ódio, sempre buscar perdoar e jamais retirar do outro sua dignidade.
No dia 4 de outubro podemos colocar flores diante da imagem de São Francisco, lembrar os pássaros, cantar e celebrar aquele homem de Assis, mas seria pouco se tudo terminasse ali, porque Francisco nunca quis ser o centro, sua paixão era seguir Jesus Cristo pobre, crucificado e ressuscitado. Eu tive a graça de viver num tempo em que um Papa escolheu chamar-se Francisco, e não escolheu esse nome por acaso, nele estavam o pobre, a paz, a fraternidade e o cuidado com a criação, sinais que nos fizeram olhar novamente para aquilo que o homem de Assis havia vivido séculos antes. Talvez os dois Franciscos, cada um em seu tempo e de maneiras tão diferentes, continuem nos apontando uma Igreja que não pode esquecer quem ficou à margem do caminho, uma Igreja que precisa sair, encontrar, acolher e também se deixar incomodar pelo Evangelho.
São Francisco nos aponta para Cristo, para quem está na calçada, para a criação ferida e para o irmão com quem já não conseguimos falar, lembrando que a casa ainda precisa ser reconstruída e que nós fazemos parte dela. Quanto mais pensamos que compreendemos Francisco, mais seu jeito radical de viver o Evangelho mostra o quanto ainda temos para caminhar.
“Entender Francisco é não entender”. (JF)
Viva CRISTO !
Viva Francisco de Assis !
Paz e Bem!
Juarez Fernandes – Especialista em Cristologia, Missiologia e Vice-diretor financeiro da Rádio Alvorada – Dia da Páscoa de Francisco de Assis