Fé que se torna compromisso – Reflexão na Quarta feira de cinzas

Fé que se torna compromisso – Reflexão na Quarta feira de cinzas

O Evangelho de Mateus proclamado na Quarta-feira de Cinzas, não é apenas uma orientação espiritual; é um chamado que desinstala. Jesus confronta a religiosidade que busca aplauso e propõe uma fé vivida no escondimento, onde o coração se encontra verdadeiramente com Deus. A esmola, a oração e o jejum deixam de ser práticas externas para se tornarem um caminho de conversão interior, onde a intenção vale mais do que o gesto visível.

A Quaresma começa com esse tom sóbrio e direto: não se trata de fazer mais coisas, mas de ser outro diante de Deus. Rasgar o coração, e não as vestes, significa abandonar a aparência e permitir que a graça toque o que é frágil, incoerente e ferido em nós. É um tempo em que a verdade espiritual aparece, e ela nem sempre é confortável.

Jesus provoca quando denuncia a fé vivida para ser vista. Ele não condena a prática religiosa, mas a vaidade espiritual. Há uma diferença profunda entre rezar para ser reconhecido e rezar porque se ama; entre jejuar para parecer forte e jejuar para reaprender a depender de Deus; entre ajudar para se sentir superior e ajudar por compaixão verdadeira.

Quarta-feira de Cinzas nos recorda também a nossa condição: somos pó, limitados, frágeis, necessitados de misericórdia. Mas esse pó é amado por Deus. A cinza não é sinal de derrota; é ponto de partida. É ali que nasce o desejo de retorno, de reconstrução e de recomeço. A conversão cristã não é moralismo: é reencontro com o Pai.

É nesse caminho que a Igreja inicia também a Campanha da Fraternidade 2026, à luz do tema Fraternidade e Moradia e do lema “Ele veio morar entre nós”, chamando cada fiel a transformar fé em compromisso histórico e concreto. Não há discipulado sem responsabilidade com o mundo ferido, especialmente quando irmãos e irmãs ainda não têm onde viver com dignidade.

O Reino de Deus não se constrói com discursos, mas com escolhas que tocam a realidade: combater a indiferença, enfrentar as estruturas que geram exclusão, defender o direito à moradia e assumir o outro como verdadeiro irmão. A pergunta que fica: nossa espiritualidade sustenta apenas práticas pessoais ou nos empurra, de fato, para um compromisso real com o Reino que Jesus inaugurou, onde ninguém é invisível e toda vida encontra lugar para habitar?


Paz e Bem!
Juarez Fernandes (Especialista em Cristologia e Membro do Conselho Fiscal da Rádio Alvorada)