À luz da narrativa de Mateus, o deserto não é apenas um lugar de prova, mas o espaço onde se revela, com profundidade, o compromisso de Jesus com o Evangelho e com o Reino de Deus. Ali se manifesta o Filho fiel, que permanece inteiramente unido à vontade do Pai e recusa construir sua missão a partir das expectativas humanas de poder, sucesso ou reconhecimento.
As tentações atingem dimensões centrais da existência: o pão, o prestígio e o domínio. São propostas sedutoras porque parecem responder a necessidades reais por caminhos imediatos, contudo, desviam do projeto do Reino. Jesus não cede, porque sua vida não se orienta pela lógica da conveniência, mas pela fidelidade ao Pai e pela verdade que sustenta sua missão.

No deserto não há diálogo, mas confronto. Jesus não negocia, não debate, não concede, mas proclama a Palavra. Sua vitória não é espetáculo de poder, mas manifestação de autoridade divina na fidelidade ao Pai. Cada resposta nasce da Escritura e revela que o mal não é interlocutor legítimo para quem vive enraizado em Deus.
Aqui se revela um ensinamento essencial para a vida cristã: o compromisso com o Evangelho não consiste em discutir com a tentação, mas em permanecer firme naquilo que Deus já revelou. Viver o Evangelho é decidir, todos os dias, pelo que gera vida, comunhão e verdade, recusando aquilo que seduz, mas afasta do amor e do sentido profundo da existência.
O Reino começa a tomar forma quando a fidelidade se torna maior que a conveniência e quando a Palavra passa a orientar escolhas concretas, deixando Deus de ser um detalhe e se tornando o centro da vida. Nesse caminho, a fé deixa de ser teoria e se transforma em modo de viver, capaz de sustentar decisões mesmo nas horas de provação.
Jesus, sendo Deus, poderia ter vencido pela manifestação direta de poder, mas vence como Filho obediente, abrindo um caminho para nós. O deserto se torna escola do Reino: lugar onde se aprende que o Evangelho não se negocia nem se adapta às seduções do momento, mas se vive com confiança. E quando é vivido, transforma o coração e faz nascer, silenciosamente, o Reino de Deus no meio do mundo.
Paz e Bem!
Liturgia 21 e 22/02
Juarez Fernandes (Especialista em Cristologia e Membro do Conselho Fiscal da Rádio Alvorada)