Um Deus de joelhos e sobre o altar: você aceita esse Evangelho?

Um Deus de joelhos e sobre o altar: você aceita esse Evangelho?

Missa da Ceia do Senhor / Lava Pés (João 13, 1 – 15) / Início do Tríduo Pascal

Na noite em que tudo parecia caminhar para o fim, Jesus realiza um gesto que revela o verdadeiro sentido de sua missão. O Evangelho de João nos mostra que, sabendo que sua hora havia chegado, Ele se levanta da mesa, tira o manto, pega uma toalha e se coloca a lavar os pés dos discípulos. O Mestre se ajoelha e se faz servo, não havendo ali apenas um gesto de humildade, mas a revelação de quem Deus é: aquele que ama servindo.

O lava-pés não é um detalhe da Ceia, mas a chave para compreendê-la. Enquanto nos outros evangelhos vemos a instituição da Eucaristia, João nos mostra o seu sentido. O pão repartido e o vinho oferecido só podem ser entendidos à luz desse gesto: Cristo se entrega por inteiro; a Eucaristia, portanto, não é apenas presença, é doação, é amor que se abaixa, que se inclina e toca a realidade do outro.

Pedro resiste, porque não consegue aceitar um Deus que se ajoelha, mas Jesus é claro: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo”. Não se trata apenas de deixar-se lavar, mas de aceitar um Deus que serve, que rompe nossas ideias de poder, de grandeza e de autoridade, pois seguir Cristo não é ocupar lugares de destaque, mas aprender a descer, a servir, a amar sem medida.

(Papa durante rito de lava-pés / Foto: Arquivo – L’Osservatore Roman)

Esse gesto não ficou preso àquela noite. Ele se prolonga na vida da Igreja, especialmente no ministério sacerdotal que não é chamado a dominar, mas a servir; não a se colocar acima, mas a se colocar à disposição. Quando celebra a Eucaristia, ele torna presente esse mesmo Cristo que se entrega e que lava os pés. Não há verdadeiro sacerdócio sem essa lógica do serviço.

Mas esse chamado não é apenas dos sacerdotes. Todo cristão que participa da Santa Missa é convidado a viver o que celebra, não bastando receber o Corpo de Cristo, mas é preciso tornar-se corpo doado, vida oferecida, presença que serve. A fé não se esgota no altar; ela se prolonga na vida, nas atitudes, nas escolhas diárias.

O lava-pés, então, deixa de ser um gesto litúrgico e se torna um compromisso de vida. Quem encontra Cristo na Eucaristia não pode sair igual, logo é chamado a viver o Evangelho, a construir o Reino, a fazer da própria vida um serviço.

Diante disso, a pergunta que fica é inevitável: aceitamos um Deus que se ajoelha diante de nós? E mais ainda: estamos dispostos a se ajoelhar diante do próximo para viver o Evangelho como Ele viveu?

Paz e Bem!

Juarez Fernandes (Especialista em Cristologia e Vice-diretor financeiro da Rádio Alvorada)