Contemplar Maria no Mistério Pascal é reconhecê-la não apenas aos pés da cruz, mas inserida, de modo singular e subordinado a Cristo, na obra inteira da redenção. Sua presença silenciosa atravessa a dor do Calvário, sustenta a esperança no Sábado Santo e se abre à luz da Ressurreição como expressão viva da fé que não se apaga.
Se no Calvário vimos Maria como a Mãe que permanece de pé quando tudo desmorona, aqui a contemplamos como aquela que permanece firme quando tudo parece ter terminado. A cruz havia silenciado o mundo, os discípulos haviam se dispersado, e a esperança aos olhos humanos parecia sepultada junto com o corpo do Filho. Mas no coração de Maria não havia desespero, havia espera; não uma espera vazia, mas sustentada por uma confiança que não precisava de provas, porque já estava enraizada em Deus.
Maria não corre ao sepulcro, não aparece nas narrativas da manhã da Ressurreição, não disputa lugar entre as testemunhas, mas sua presença é outra: é interior, profunda, silenciosa. Enquanto outros buscam sinais, ela guarda a promessa; enquanto muitos vacilam diante do mistério, a tradição da Igreja contempla Maria como aquela que permanece firme na fé. E é justamente aí que sua grandeza se revela, não no ver mas no crer.

A Ressurreição de Cristo não é apenas um evento que rompe o túmulo; é a vitória definitiva do amor sobre tudo aquilo que parecia invencível, estando Maria unida a essa vitória não como espectadora, mas como aquela que, desde o início, disse “sim” a esse caminho. O mesmo “sim” que abriu espaço para a encarnação é o que sustenta agora a esperança da vida nova, e nela a fé não se fragmenta entre dor e glória; tudo é acolhido como parte do mesmo mistério.
Por isso, olhar para Maria no Mistério Pascal é compreender que o caminho da Ressurreição passa pela sexta-feira, mas no modo como se atravessa a cruz e se permanece no silêncio do sábado. Maria ensina que a fé verdadeira não depende de evidências imediatas, mas de uma fidelidade que resiste ao vazio, à ausência e à noite. E é aqui que o Evangelho continua.
Viver a Ressurreição é comprometer-se com o Reino de Deus, inaugurado por Cristo e confiado àqueles que escolhem seguir seus passos. É levantar quem caiu, cuidar de quem sofre, aproximar-se de quem foi esquecido e devolver dignidade a quem já não se sente visto; é sustentar quem já não consegue caminhar e escolher o amor quando tudo convida à indiferença. A vitória de Cristo sobre a morte não elimina o sofrimento do mundo, mas dá a ele um sentido novo: nada mais é definitivo quando o amor permanece.
Maria, inserida nesse mistério, torna-se para nós mais do que memória: torna-se caminho. Aquela que acreditou quando ninguém acreditava agora nos convida a viver essa mesma fé no cotidiano, onde tantas vezes a vida parece também marcada por pequenas mortes, injustiças, dores, abandonos e silêncios. Nela, aprendemos que a esperança não é discurso, mas permanência. Sua vida não termina na cruz, assim como a de Cristo não termina no túmulo. É fidelidade concreta, vivida no oculto, longe dos aplausos, mas profundamente enraizada em Deus em uma fé que permanece, sustenta e transforma, mesmo quando tudo parece silêncio. Por isso, contemplar Maria no Mistério Pascal é também aceitar um chamado: o de viver como ressuscitados no meio de um mundo ainda ferido. É acreditar que o bem não é inútil, que a entrega não é perda e que amar nunca é em vão.
A Ressurreição venceu a morte e irrompe no mundo, tornando-se visível no mundo toda vez que alguém escolhe amar, servir e permanecer. E Maria, que no silêncio do Sábado Santo nos ensina a esperar e a crer, conduz-nos também à luz da Ressurreição, como aquela que permanece firme na fé e nos chama a caminhar na esperança que não se apaga.
Paz e Bem!
Juarez Fernandes (Especialista em Cristologia e Vice-diretor financeiro da Rádio Alvorada)