A Mãe Aparecida que surgiu das águas

A Mãe Aparecida que surgiu das águas


12 de outubro: Bem-Aventurada Virgem Maria da Conceição Aparecida

Em 1717, nas águas do rio Paraíba do Sul, três pescadores, João Alves, Felipe Pedroso e Domingos Garcia, viveram um acontecimento que marcaria a história da fé no Brasil. Depois de uma pescaria sem resultados, encontraram em suas redes o corpo de uma pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição, sem a cabeça e, ao lançarem novamente as redes, encontraram a parte que faltava, seguindo-se, segundo a tradição, uma pesca abundante. Eram homens simples, acostumados ao trabalho e às dificuldades da vida, e foi justamente pelas mãos desses pescadores que a pequena imagem chegou até nós, lembrando que Deus também se faz presente na vida daqueles que, mesmo diante das dificuldades, não perdem a esperança.


A imagem retirada das águas também nos faz refletir sobre a história do nosso povo, especialmente por sua coloração escura, associada às condições de conservação do barro ao longo do tempo, em um país marcado pela escravidão e pelas desigualdades sociais. Nossa Senhora Aparecida passou a fazer parte da fé de brasileiros de diferentes origens e condições sociais, enquanto as redes lançadas repetidamente nos falam da perseverança e a imagem encontrada em duas partes, depois reunida, nos faz pensar em tantas divisões que ainda precisamos superar.


A presença de Maria na história da salvação começa com seu SIM ao anúncio do anjo, quando aceitou ser a Mãe de Jesus e colocou sua vida a serviço de Deus. Sua missão nunca foi ocupar o lugar do Filho, mas conduzir as pessoas até Ele, como aconteceu nas bodas de Caná, quando percebeu a dificuldade daqueles que celebravam e disse aos serventes: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5). É essa Maria que encontramos na devoção a Nossa Senhora Aparecida, uma Mãe que nos acompanha, intercede por nós e nos ensina que a fé precisa estar presente também na maneira como tratamos as pessoas.


No Brasil, a devoção à pequena imagem cresceu e atravessou gerações, até que Nossa Senhora Aparecida foi proclamada Padroeira principal do país pelo Papa Pio XI, em 1930. Sua maternidade espiritual, porém, não conhece fronteiras e, como intercessora, Maria apresenta nossas necessidades a Deus, sempre em comunhão com Jesus Cristo, único mediador da salvação, e, quando recorremos à sua proteção, confiamos na oração daquela que permaneceu junto ao Filho até a cruz e que continua sendo para os cristãos exemplo de fé, confiança e amor ao próximo.


Celebrar Nossa Senhora Aparecida no dia 12 de outubro também nos faz lembrar das crianças, homenageadas nessa mesma data, pois Maria conheceu as preocupações de uma mãe, cuidou de Jesus e enfrentou com José os perigos que ameaçavam sua vida. Seu exemplo nos leva a olhar para tantas crianças brasileiras que ainda vivem sem alimentação adequada, proteção, educação e oportunidades, porque não podemos celebrar a Mãe e esquecer seus pequenos filhos, principalmente aqueles que enfrentam a pobreza, a violência e o abandono, lembrando que o compromisso cristão com a infância não pode ficar restrito às comemorações.


Mas o que Nossa Senhora Aparecida tem a nos dizer diante do Brasil que vivemos hoje? Vivemos em um Brasil onde as diferenças políticas e ideológicas têm afastado pessoas, dividido famílias e enfraquecido amizades, como se pensar diferente fosse motivo suficiente para deixar de respeitar e até mesmo amar o outro. Famílias se afastam, amizades são desfeitas e o diálogo perde espaço para a intolerância, esquecendo-se de que nenhuma diferença pode justificar o ódio, a humilhação ou a indiferença diante do sofrimento humano.


Talvez esteja aí um dos maiores desafios de nossa fé: reaprender a amar, dialogar, acolher, compreender, perdoar e ter misericórdia, sem que isso signifique fechar os olhos para as injustiças. Nossa Senhora Aparecida não pode ser apropriada por interesses políticos ou ideológicos que pretendam dividir seus filhos, pois sua missão é nos aproximar de Cristo, que ensinou o amor ao próximo, inclusive àqueles de quem discordamos. Aquela imagem encontrada em duas partes e depois reunida também nos faz pensar no Brasil de hoje, tão dividido, onde muitas vezes esquecemos que, antes de qualquer diferença, somos irmãos.

Neste 12 de outubro, mais do que homenagear Nossa Senhora Aparecida, precisamos olhar para nossa própria vida, pois de pouco adianta rezar diante de sua imagem se permanecemos indiferentes aos pobres, às crianças, aos idosos e àqueles que sofrem, ou se guardamos ressentimentos contra nossos irmãos. Que a Padroeira do Brasil interceda por nossa nação e nos ajude a recuperar o diálogo, o respeito e a capacidade de perdoar, porque a devoção a Maria também precisa aparecer na maneira como vivemos e tratamos uns aos outros. E, diante das dificuldades e divisões que enfrentamos, que nossa oração seja também a expressão da fé simples e confiante de um povo que sofre, mas não perde a esperança e, assim como João Grilo clama: “Valha-me, Nossa Senhora!”

Viva CRISTO ! Viva nossa Mãe Aparecida !

Paz e Bem!
Juarez Fernandes – Especialista em Cristologia, Missiologia e Vice-diretor financeiro da Rádio Alvorada