O Evangelho proclamado nos conduz a uma das imagens mais íntimas e exigentes da vida cristã: Jesus como o Bom Pastor. Não se trata de uma comparação distante ou apenas poética; é uma revelação profunda sobre quem Ele é e sobre quem nós somos chamados a ser. Nele, encontramos não apenas consolo, mas também verdade que confronta e chama à conversão.
Cristo não entra no coração humano como um invasor, mas também não se confunde com qualquer voz. Ele chama pelo nome, mas sua voz exige reconhecimento e decisão; não basta ouvi-Lo; é preciso segui-Lo. Sua palavra não manipula, mas também não relativiza: ela ilumina e, ao mesmo tempo, desinstala, porque revela o que em nós ainda não é vida plena.

Fazer parte desse Bom Pastor não é apenas segui-Lo de longe, mas permitir que a própria vida seja conduzida por Ele, inclusive quando isso implica renúncia. Há muitas vozes que tentam nos guiar: vozes de egoísmo, autossuficiência, relativismo, indiferença, e o discípulo é chamado a discernir. Nem toda voz que parece acolhedora conduz à vida; algumas apenas anestesiam e afastam do verdadeiro caminho.
Quando Jesus afirma que veio para que todos tenham vida e a tenham em abundância, Ele não fala de conforto fácil ou de uma existência sem cruz. Trata-se de uma vida plena, reconciliada e livre, que passa pela verdade do amor e pela coragem de mudar. A abundância de que Ele fala não exclui o sacrifício; ao contrário, nasce dele.
Essa promessa de vida se revela plenamente no próprio Cristo, que não apenas guia, mas se entrega. O Bom Pastor não foge diante do perigo, nem abandona suas ovelhas nas horas difíceis; Ele dá a vida por elas; Segui-Lo, portanto, é entrar nesse mesmo dinamismo de entrega, onde amar deixa de ser sentimento e se torna decisão concreta, mesmo quando custa.
À luz dessa Palavra, a Igreja é chamada a reconhecer, com humildade, que não é dona do rebanho, mas serva daquele que é o verdadeiro Pastor. E, de modo particular, os presbíteros são convidados a configurar a própria vida a Cristo, não apenas em palavras, mas em gestos concretos de proximidade, cuidado e responsabilidade pelo povo que lhes é confiado.
O pastor segundo o coração de Cristo não pode se acomodar na distância ou no conforto das estruturas. O risco do fechamento, do clericalismo e de olhar para si mesmo, é real e precisa ser constantemente purificado. Ele conhece suas ovelhas porque vive entre elas, escuta suas dores e carrega suas feridas. É aquele que, como recorda Papa Francisco traz em si o “cheiro das ovelhas” não como imagem poética apenas, mas como expressão de uma vida verdadeiramente entregue.

No fundo, esse Evangelho nos recorda que todos: Igreja, pastores e fiéis, somos antes de tudo ovelhas que escutam uma voz. E essa voz não nos fecha em nós mesmos: ela nos envia. Há outras ovelhas que ainda não conhecem o Pastor, e a missão nasce dessa escuta fiel. Assim, uma Igreja que se deixa conduzir por Cristo torna-se mais próxima, mais verdadeira e mais missionária, capaz de amar com radicalidade e conduzir outros ao encontro da vida que não passa, porque só quem escuta o Pastor aprende, de verdade, a ser caminho para os outros.
Paz e Bem!
Juarez Fernandes – Especialista em Cristologia e Vice-diretor financeiro da Rádio Alvorada